"Quando os últimos perfumes Da primavera Se desfazem no ar E a quimerada vida Um olhar... Um amor... Querida! Novamente aparece com o frio que chega, Pelas ruas da cidade, Em quantidade, Há mulheres bonitas, bonitas Tão bonitas! ... Então desperta a flor do inverno, perfumada Nos lábios rubros da mulher agasalhada". Flor de Inverno, Ary Barroso.
Iansã ou Oyá é Orixá do fogo, dos ventos, dos raios, das tempestades. Guerreira, é regente das paixões. Iansã é a paixão, o sentimento mais forte que a razão. Eparrei, Iansã! Eparrei, Oyá!
"O raio de Iansã sou eu Cegando o aço das armas de quem guerreia E o vento de Iansã também sou eu E Santa Bárbara é santa que me clareia.
A minha voz é vento de maio Cruzando os mares dos ares do chão Meu olhar tem a força do raio que vem de dentro do meu coração.
Eu não conheço rajada de vento mais poderosa que a minha paixão. Quando o amor relampeia aqui dentro, vira um corisco esse meu coração. Eu sou a casa do raio e do vento Por onde eu passo é zunido, é clarão Porque Iansã desde o meu nascimento, tornou-se a dona do meu coração. O raio de Iansã sou eu O vento de Iansã também sou eu". A dona do raio: o vento, canção de Dorival Caymmi.
"Os sinais eram inequívocos. Aquelas nuvens baixas, escuras. O vento que soprava desde a véspera, arrancando das árvores folhas amarelas e vermelha. Não queriam partir. É, estava chegando o inverno. Deveria nevar. Viriam então a tristeza, as árvores peladas, a vida recolhida para funduras mais quentes, os pássaros já ausentes, fugidos para outro clima, e aquele longo sono da natureza, bonito quando cai a primeira nevada, triste com o passar do tempo. Resolvi passear, para dizer adeus às plantas que se preparavam para dormir, e fui, assim, andando, encontrando-as silenciosas e conformadas diante do inevitável, o inverno que se aproximava. Qualquer queixa seria inútil. E foi então que me espantei ao ver um arbusto estranho. Se fosse um ser humano, certamente o internariam num hospício, pois lhe faltava o senso da realidade, não sabia reconhecer os sinais do tempo. Lá estava ele, ignorando tudo, cheio de botões, alguns deles já abrindo, como se a primavera estivesse chegando. Não resisti e, me aproveitando de que não houvesse ninguém por perto, comecei a conversar com ele, e lhe perguntei se não percebia que o inverno estava chegando, que os seus botões seriam queimados pela neve naquela mesma tarde. Argumentei sobre a inutilidade daquilo tudo, um gesto tão fraco que não faria diferença alguma. Dentro em breve tudo estaria morto. E ele me falou, naquela linguagem que só as plantas entendem, que o inverno de fora não lhe importava, o seu era um ritmo diferente, o ritmo das estações que havia dentro. Se era inverno do lado de fora, era primavera lá dentro dele e seus botões eram um testemunho da teimosia da vida que se compraz mesmo em fazer o gesto inútil. As razões para isso? Puro prazer". A árvore que floresce no inverno, por Rubem Alves.